Ginecologista orienta sobre como evitar a gravidez na adolescência PDF Imprimir E-mail
Espaço Vip
Seg, 31 de Outubro de 2011 08:18

A cada ano o número de adolescentes que engravidam tem aumentado. Este é um problema que afeta a vida dos jovens e estrutura familiar. “Mas como prevenir a gravidez indesejada? Quais são os métodos mais seguros para se proteger da gravidez e doenças sexualmente transmissíveis? E os pais, qual o papel deles na vida sexual dos seus filhos?”. Para esclarecer essas dúvidas, fomos procurar a ginecologista e obstetra Dra. Veridiane Sá, que cedeu a seguinte entrevista.

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Supramax - A que se deve esse número elevado de gravidez na adolescência?

Dra. Veridiane Sá-
Há um conjunto de fatores: a iniciação sexual que vem ocorrendo em idades cada vez mais precoces, a ausência de um projeto de vida que inclua estudo e formação profissional, atraso ou evasão escolar, modelo cultural e familiar de gestação na adolescência, falta de incentivo à anticoncepção por parte da família, de amigos e equipe de saúde e, também, pela percepção da gestação como um evento positivo. Aquela idéia de que a adolescente só engravida porque esquece a camisinha caiu por terra. Se esse fosse o único motivo, seria bem mais fácil contornar a situação. É preciso encarar esse acontecimento não invariavelmente como uma falha na orientação anticoncepcional, mas, como uma situação mais complexa, em que – sob a óptica da gestante e do seu parceiro, devido a suas percepções de possibilidades limitadas de realização pessoal, escolar e profissional – nem sempre a gravidez será considerada um acontecimento indesejável.

 

Supramax - Quais os riscos que uma gravidez na adolescência pode oferecer à mãe?

Dra. Veridiane Sá-
Quando se fala em riscos, automaticamente, lembramos dos fatores orgânicos, mas, tão ou mais relevante que eles é o prejuízo psicossocial que a gravidez indesejada na adolescência pode acarretar.

Os riscos da gravidez na adolescência estão relacionados tanto à idade cronológica em si, quanto ao início geralmente tardio do acompanhamento pré-natal. Devido à pouca idade há uma imaturidade da vascularização uterina, o que pode acarretar o parto prematuro ou uma placenta insuficiente. Além do mais, ela está em desenvolvimento e, então, passa a competir com o feto, que se encontra na mesma condição.

O atraso no início das consultas retarda o diagnóstico de algumas situações, bem como o fornecimento de informações importantes ao período gestacional, como a orientação alimentar. As patologias mais freqüentes nas adolescentes grávidas são: pré-eclâmpsia, eclampsia, anemia, infecções urinárias e genitais e doenças sexualmente transmissíveis, que podem ser evitadas ou amenizadas com um pré-natal bem feito.

Se a adolescente opta pelo aborto, os riscos para sua saúde são ainda maiores. Além de perder o bebê, a mãe pode perder também a própria vida. O aborto provocado também pode trazer problemas como infecções, hemorragias e até esterilidade. Tudo isso sem contar o sentimento de culpa que poderá carregar por toda a vida. Mas, tão ou mais relevante que as alterações orgânicas é o prejuízo psicossocial que a gravidez indesejada na adolescência pode acarretar.

Muitas vezes, a união com o pai da criança parece ser a solução ideal e, acreditando nisso, alguns jovens acabam se casando e assumindo uma série de obrigações e responsabilidades que o jovem casal não estava preparado para assumir. Assim, há mais possibilidades de acontecer uma separação. Quando a jovem adolescente é abandonada pelo parceiro e este não reconhece a paternidade, resta aos pais dela assumir a criação e educação dessa criança. Nesses casos a jovem deixa de se sentir responsável pelos cuidados com o bebê, correndo o risco de engravidar de novo, do mesmo ou de outro parceiro.

 

Supramax- E quais são os riscos acarretados para a saúde da criança?

Dra. Veridiane Sá-
Os riscos biológicos para o recém nascidos são comprovadamente mais freqüentes nesta faixa etária e estão relacionados, principalmente, à prematuridade e ao baixo peso ao nascer que são comuns em filhos de adolescentes. Eles estão mais suscetíveis a infecções em geral, sobretudo, as respiratórias. E dependendo da atitude da mãe frente à criação do filho, este poderá sofrer disfunções psicológicas sérias a médio e longo prazo. Uma mãe presente e responsável gera um filho à sua semelhança, enquanto que uma mãe negligente, muito provavelmente, terá um filho à altura. Por tudo isso, podemos ver que a adolescência não é o melhor momento para a maternidade.

 

Supramax- Até que ponto a gravidez precoce pode atrapalhar a vida da adolescente?

Dra. Veridiane Sá-
A gravidez indesejada na adolescência é vivida pela jovem como um período de muitas perdas. Ela deixa de viver sua juventude, interrompendo seus estudos, abandonando o sonho da formação profissional e seus projetos de vida. Por causa dessa nova responsabilidade, pode afastar-se dos amigos e perder a confiança e o apoio da família, que muitas vezes expulsa e abandona a jovem à sua própria sorte. Quando a jovem se sente abandonada pela família e comunidade, ela pode procurar outros caminhos ainda mais tortuosos e degradantes, como o do alcoolismo, das drogas e da prostituição.

 

Supramax- Qual o papel dos pais na vida sexual dos adolescentes?

Dra. Veridiane Sá-
O papel dos pais na vida sexual dos adolescentes não deve ser instantâneo, o ideal é que existam alicerces. Se desde cedo os pais conversarem com a criança, respondendo o que ela pergunta e respeitando a curiosidade sem violência e sem críticas, estarão criando um canal aberto de comunicação. Isso vai facilitar as conversas entre as partes, fazendo com que os jovens se sintam mais seguros, amados e respeitados. Quanto mais o adolescente gostar de si mesmo e se cuidar, menor é o risco de uma gravidez nessa fase. Através do diálogo e do relacionamento amigo com seus filhos, os pais vão orientando os adolescentes sobre a importância de iniciar o relacionamento sexual quando estiverem mais preparados para assumir uma relação madura e responsável. Quando o adolescente se sente feliz e confiante na família, pode adiar o início da atividade sexual. Para que isso ocorra, é preciso que seus pais criem, desde cedo, um ambiente de respeito e amor. Assim, o adolescente vai desenvolvendo uma boa imagem de si mesmo e do mundo. Isso vai ajudá-lo a cuidar melhor de si e a se preservar, para que possa concretizar seus projetos de vida com respeito e responsabilidade. Um filho não pode ser fruto de uma atitude impensada. Precisa ser planejado, ser fruto de um projeto de vida. Quando os pais têm um bom relacionamento e engravidam porque desejaram, o bebê tem mais chances de se desenvolver saudável e feliz.

Além disso, os casais com filhos – do sexo feminino, principalmente – devem tirar da mente a idéia de que isso só acontece com a filha do vizinho e tomar o problema para si, já que todos estão expostos ao risco. Alguns pais preferem acreditar na impossibilidade de isso ocorrer no seu lar e, infelizmente, esses são os que descobrem que a filha tinha uma vida sexual ativa quando ela chega com a notícia da gravidez. Aceitar que isso pode acontecer com a sua menina e orientá-la devidamente ainda é o melhor caminho para prevenir uma gravidez indesejada.

 

Supramax- Qual a melhor idade para os pais abordarem o assunto “sexualidade”?

Dra. Veridiane Sá- Não existe idade certa, a melhor hora é aquela em que as dúvidas aparecem, o que pode acontecer com 3 ou com 10 anos. O ideal é o esclarecimento contínuo desde as menores idades, intensificando-se as orientações e dirigindo-as a determinados assuntos – como a prevenção da gravidez indesejada e das DSTs – à medida que a criança se aproxime da adolescência.

 

Supramax - Qual é a hora certa da primeira visita ao ginecologista?

Dra. Veridiane Sá-
Os especialistas em saúde do adolescente recomendam que a primeira consulta da menina seja realizada logo após o crescimento das mamas e pêlos pubianos que, geralmente, ocorre entre 10 e 14 anos de idade. É importante entender que a consulta ginecológica não deve ser apenas curativa, ou seja, os pais não devem levar a filha ao ginecologista apenas quando já houver alguma situação a ser resolvida, como, por exemplo, uma gravidez indesejada. Ela deve ser profilática, preventiva. Uma boa consulta aliada a uma boa conversa evita o aparecimento de várias situações inesperadas e, por vezes, desagradáveis, como doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada.

 

Supramax - Quais os métodos contraceptivos mais indicados para se evitar a gravidez na adolescência?

Dra. Veridiane Sá-
A maioria dos métodos contraceptivos pode ser utilizada por adolescentes, respeitando-se as limitações individuais, a capacidade de adaptação ao método, as preferências pessoais e as contra-indicações. Os implantes subdérmicos são considerados pelo Congresso Americano de Ginecologistas e Obstetras como método de primeira linha em adolescentes pela facilidade de uso, alta eficácia, impossibilidade de esquecimento e independência da colaboração do parceiro. Outra boa alternativa são os anticoncepcionais injetáveis, com intervalos de aplicação prolongados (30 ou 90 dias), o que reduz a ocorrência de esquecimento.

Existem ainda os anticoncepcionais orais combinados, muito eficazes quando tomados corretamente, minipílulas, anéis vaginais, adesivos transdérmicos e DIUs. A qualquer um dos métodos citados deve-se associar o preservativo, já que é o único capaz de evitar, além da gravidez, as doenças sexualmente transmissíveis.

Os métodos menos aceitos pela baixa eficácia e dificuldade de reversão são, respectivamente, os comportamentais (coito interrompido e tabelinha, principalmente) e laqueadura tubária.

 

Supramax- A adolescente pode iniciar o uso da pílula anticoncepcional sem orientação médica?

Dra. Veridiane Sá-
O ideal é que ela tenha a orientação de um profissional. O único aspecto importante não é o fato de usar a pílula ou qualquer outro método contraceptivo: usá-lo corretamente faz toda a diferença. Não vai adiantar fazer uso da pílula se não começar no dia certo, não der o intervalo recomendado ou não souber como manejar os efeitos colaterais ou até mesmo os esquecimentos: o risco de gravidez continuará a existir.

O medo de que os pais saibam da existência da vida sexual ativa ainda é a grande barreira entre as adolescentes e o médico, principalmente em cidades menores, como Salgueiro, onde as pessoas se conhecem. E entre esses profissionais ainda existem as dúvidas que se relacionam à possibilidade de orientação anticoncepcional e prescrição de método adequado sem autorização ou ciência dos pais ou responsáveis. Deve ser lembrado que a contracepção é um direito do paciente. Além disso, é dever do médico manter o sigilo a respeito dos seus pacientes, inclusive os menores de idade, desde que não se esteja colocando suas vidas em risco.

 

Supramax- É importante que a pílula anticoncepcional pode engordar e causar espinhas?

Dra. Veridiane Sá-
Cada anticoncepcional tem seus efeitos colaterais, assim como cada paciente tem uma forma particular de reagir a ele. De uma forma geral, os anticoncepcionais hormonais levam ao ganho ponderal, mas, existem alguns tipos de pílula anticoncepcional que podem causar efeito contrário e levar à perda de peso. Esse efeito, entretanto, pode ser contornado com a instituição de uma alimentação saudável aliada à prática de exercícios físicos.

Quanto às espinhas, elas são mais comuns quando se usa as chamadas pílulas de progestágenos ou “minipílulas”. As pílulas chamadas “combinadas”, ao contrário, podem, até mesmo, ajudar no controle das espinhas

 

Supramax- Outro método contraceptivo é a pílula do dia seguinte. Quando é recomendado o uso dela?

Dra. Veridiane Sá-
A pílula do dia seguinte, que é uma contracepção de emergência, deve ser utilizada quando o método anticoncepcional corrente apresenta falha, como ruptura do preservativo ou esquecimento de duas pílulas contraceptivas ou mais. Esse método pode ser utilizado com segurança nesse grupo, mas, não deve jamais ser adotado como rotina, já que sua eficácia é inversamente proporcional à quantidade de vezes que se usa.

 

A Dra. Veridiane Sá é formada pela Universidade de Pernambuco (UPE) e pós-graduada pela IPEMED/ Universidade Gama Filho – Salvador-BA. Ela presta atendimento na Endoclínica, que fica localizada na Avenida Antônio Angelim, número 643, em Salgueiro. As consultas são marcadas pelo número (87) 3871-3736.